Nossa Senhora de Guadalupe
É sabido que principalmente em Espanha se presta desde séculos culto fervoroso a Nossa Senhora de Guadalupe, passando depois para o México, onde também a devoção para com a Virgem Imaculada, debaixo desta invocação, é grande e muito generalizada, existindo naqueles países santuários celebres, centros de inúmeras romagens e acendrada piedade, que tem por especial objecto importantes manifestações de culto em honra da Santíssima Virgem.
Em Portugal também há vários templos, em que se cultiva a devoção para com Nossa Senhora de Guadalupe, e nesta diocese sabemos que a igreja paroquial do Porto da Cruz lhe é consagrada e que nesta de Santo António existe uma bonita capela, que igualmente lhe é dedicada.
Lembra-nos de ter lido há anos um sermão de Nossa Senhora de Guadalupe, em língua espanhola, em que se dizia que da ilha da Madeira iam anualmente para Espanha avultadas esmolas destinadas ao culto desta invocação. Não sabemos se tem fundamento seria esta afirmativa e menos ainda conhecemos quaisquer outras particularidades que lhe digam respeito. Ignoramos até onde remonta, nesta freguesia de Santo António, o culto prestado a Nossa Senhora de Guadalupe, mas é indubitavelmente anterior a 1652, pois já então existia a confraria daquela denominação, sendo de presumir, e há bons fundamentos para acredita-lo, que muito anteriormente àquele ano já aqui estivesse generalizado esse culto. Na antiga igreja paroquial era-lhe consagrado um, altar ou capela especial, que sempre fora objecto de fervorosos cultos por parte dos habitantes desta paróquia. Em diversas épocas e nomeadamente no ano de 1747 se fizeram importantes reparos nesta capela, custeados pela respectiva irmandade. Na nova e ampla igreja, que se edificou em 1783, foi-lhe destinado o principal altar, depois do orago e do Santíssimo Sacramento.
A nova capela, embora despida de grandes primores artísticos e apesar da sobriedade dos seus ornatos, é de uma notável elegância e dá-nos, no seu conjunto, um certo ar de majestade e de beleza, que impressiona muito agradavelmente. Quando se projectou a construção da nova igreja paroquial, estava naturalmente indicado que seria a confraria de Nossa Senhora de Guadalupe que principalmente concorreria para o custeamento da capela da sua padroeira, mas a irmandade disponha de parcos recursos e não teria talvez entre os seus confrades quem tomasse a iniciativa duma obra relativamente importante e dispendiosa como esta. Tudo o que se fez, deve-se quase inteiramente ao acendrado zelo e inexcedível dedicação do então cura desta paróquia o padre Manuel João Pereira de Sousa. Se ele não fora, certamente que no novo templo só teria sido consagrado a Nossa Senhora de Guadalupe um pequeno e modesto altar, O Dr. António Pereira Borges, vigário desta freguesia na época da edificação da actual igreja, dizia em Dezembro de 1797, referindo-se ao mesmo cura «…a cujo indizível zelo se deve a obra da mencionada capela, que se não fora a sua diligencia e louvável zelo ella nunca se completaria, pois que ninguém sujeitaria ao grande trabalho e fadiga a que elle se tem sujeitado por mera devoção, o que não deixará de lhe ser recompensado pela mesma Senhora, o que tudo não só se faz digno de aprovação mas de louvor, e se lhe deve suplicar queira continuar no mesmo zelo e fervor». Foi o padre Manuel J. Pereira de Sousa, que não só tomou a iniciativa da construção da capela, como também angariou os necessários donativos e presidiu desveladamente á direcção de todos os trabalhos até á sua conclusão definitiva, tendo também contribuído com uma quantia avultada para as mesmas obras.
Os trabalhos da respectiva edificação começaram em Abril de 1784 e só terminaram em Junho de 1797, tendo havido varias interrupções por falta de recursos e também por algumas imprevistas dificuldades -que surgiram. O total da sua construção elevou-se a cerca de dois contos e setecentos mil reis, tendo sido custeada esta despesa com as esmolas dos fiéis arrecadadas em toda a paróquia e com vários donativos particulares. A respectiva Confraria, dispondo de minguadas receitas, teve uma parte diminuta no custeamento daquelas obras. As cantarias do arco, portas e janelas atingiram a importância de 604$000 reis, tendo a mão-de-obra do altar custado 532$000 reis e a sua pintura e douramento aproximadamente 500$000 reis. O altar foi construído em 1797 pelo artífice Estêvão Teixeira e o seu douramento e ornatos executados pelo pintor francês Boaventura Beze. Por esta época adquiriram-se doze castiçais de 76$000 reis. Foi a 18 de Dezembro de 1808, quando os trabalhos de construção e pintura se achavam definitivamente concluídos, que se colocou a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe na sua capela, realizando-se por essa ocasião um imponente préstito religioso, em que se incorporou a maior parte dos fieis desta paróquia, manifestando a mais indizível satisfação pelo total acabamento das obras, que todos se empenharam em levar a cabo. O próprio iniciador desta obra deixou exarado num livro do arquivo paroquial: «A mesma Senhora permita remunerar-me na eternidade a dedicação, zelo e trabalho que tive com esta obra e a todos os paroquianos que deram suas esmolas, pois sem estas nada se fazia».Quis ele manifestar o seu reconhecimento aos que tão dedicadamente o auxiliaram na realização daquele empreendimento, dando-lhes e aos seus vindouros um testemunho perpetuo do apreço em que tivera o seu zelo pelo culto da Virgem Senhora de Guadalupe. Solicitou e obteve de Roma um Breve de indulgência plenária, que pode ser lucrada por todas as pessoas que devidamente dispostas, visitarem aquela capela na quarta dominga de Agosto, dia em que se realizava a festa da sua padroeira. Transcrevemos documento comprovativo daquela concessão:
«Pio Papa Sétimo. Para perpetua memoria desta graça, aplicados Nós com paternal caridade a aumentar a religião dos fieis e a salvação das almas com os celestiaes thesouros da Egreja Concedemos misericordiosamente em o Salvador, indulgencia Plena ria e remissão de todos os seus pecados a todos os fieis christãos d’um e outro sexo, que verdadeiramente contritos, confessados e commungados, visitarem devotamente todos os annos, a parochial egreja de Santo Antonio da ilha da Madeira, do Bispado do Funchal, desde primeiras vesperas da quarta dominga do mez de Agosto até o pôr do sol do mesmo dia, e ahi fizeram piedosas suplicas a Deus pela paz e concordia entre os principes christãos, extirpação das heresias e exaltação da santa madre egreja. As presentes valerão por todos os scculos futuros. Dado em Roma junto da Santa Maria Maior, debaixo do anuel do pescador, em os trinta dias de Julho de mil oitocentos e cinco, no anno sexto do nosso Pontificado. Pelo senhor Cardeal Broschio de Honestis, G. Bernie, substituto».
O referido sacerdote Manuel João Pereira de Sousa sempre devotado ao culto da Virgem Imaculada sob a invocação de Nossa Senhora de Guadalupe, alcançou também da Santa Sé um breve datado de 14 de Julho de 1805, em virtude do qual é permitido, na quarto domingo de Agosto, celebrasse na igreja paroquial desta freguesia missa cantada votiva de Nossa Senhora, segundo as clausulas e restrições que no mesmo breve vem indicadas.
Esse documento, cujo original se conserva no respectivo arquivo paroquial, é assim concebido:
«S.Smus Dnus Noster Pius VII Pont. Max. ad humilimas preces hodierni parochi ecclesiae parochialis titulo de S. Antonii Maderae Funchalen Diocesis me infrascrº Secretario benigne indulsit ut quotannis in dominica IV mensis augusti modo non oçcurrat offidum ritus dupl. primae vel secundae classis, occasione pecuJiaris festi, quod agitur in dicta ecclesia in honorem B. M. V. quae dicitur de Guadalupe ab omnibus sacerdotibus ad Sacrum fadendum convenientibus in eamdem Ecclesiam celebrari possit Missa propria jam approbata de eadem B. M. V. cum commemorationibus tamen offici diei, dominicae aliisque occurrentibus xta rubricas in omnibus missis priva tis atque étiam in missis cum cantu si presteria ecclesia celebrata non fuerit missa conventualis de die. Occurrente vero officio ritus dupl. secundae classis dumtaxat, indulsit ut celebrari possit una tantum missa cantu ut supra.Die 14 julii 1805.»
O padre M. Pereira J. de Sousa continuou até á morte, prestando á Confraria e devoção de Guadalupe os mais desinteressados e relevantes serviços na qualidade de zelador, que foi da mesma confraria, melhorando e dotando a capela com valiosos objectos destinados ao culto, como foram uma lâmpada de prata que importou em quantia superior a 300$000 reis, uma coroa do mesmo metal para a imagem de Nossa Senhora que custou 58$880 reis, além dum frontal do altar comprado em Lisboa por 125$480 reis, não contando ainda com vários reparos e outros melhoramentos realizados na mesma capela. Faleceu este benemérito sacerdote a 21 de Junho de 1811. Jaz sepultado, segundo sua própria disposição, na capela de que foi o mais dedicado benfeitor e á qual se acha indissoluvelmente ligado o seu nome. Como dissemos no princípio deste capítulo, a referenda mais antiga que encontrámos á confraria de Guadalupe remonta ao ano de 1652, conjecturando, porém, que a sua criação é muito anterior àquela data. Era, depois da do Santíssimo Sacramento, como ainda o é actualmente, a irmandade mais importante desta paróquia. Possuía vários prédios, onerados com encargos de missas perpetuas, no Vasco Gil, Jamboto, Curral Velho, Boa Vista e outros sítios. Teve escrituração regular da sua receita e despesa até 1842. No ano de 1897 organizou seu compromisso ou estatutos, que receberam a aprovação da autoridade competente, mas a falta de cumprimento das respectivas prescrições legais reduziram-na a um simples agregado de pessoas, que se destina unicamente á celebração duma festa anual em honra de Nossa Senhora de Guadalupe. Entre os mais devotados benfeitores desta irmandade, conta-se o padre Pedra Gonçalves de Aguiar, natural desta freguesia e que nela faleceu a 20 de Setembro de 1722, jazendo sepultado na capela de Guadalupe com laje tumular e epitáfio próprios. Também ali se sepultou Ana de Oliveira, benfeitora da mesma confraria, á qual legou vários bens de raiz com encargo de algumas pensões pias.
Por ocasião da missão religiosa que houve nesta freguesia em 1878, dirigida pelos padres Thomaz Vitale e Joaquim Machado se estabeleceu a liga do Apostolado da Oração e do Sagrado Coração de Jesus, dando-se-lhe como sede a capela de Nossa Senhora de Guadalupe, onde se encontra o competente diploma de agregação, que tem a data de 2 de Outubro daquele ano. Pouco tempo depois se adquiriu a imagem do Sagrado Coração de Jesus, que até há pouco se. Venerava no mesmo altar e onde, em todas as primeiras sextas-feiras de cada mês se faziam os actos religiosos que estão preceituados para estas ocasiões.
Em 1894, a pia associação do Sagrado Coração de Jesus mandou proceder a importantes reparos na pintura e douramento desta capela, devido principalmente ao zelo e diligentes esforços do padre Teodoro João Henriques, cura da paróquia, despendendo-se aproximadamente trezentos mil reis nesse melhoramento. Numa das faces laterais de altar se encontra o seguinte: «Esta capella foi mandada pintar e dourar em 1894 pela Associação do Sagrado Coração de Jesus, sendo director o cura Teodoro João Henriques».





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