Santo António

Paróquia de Santo António da Ilha da Madeira (XXV)

Janeiro 23, 2007 · Deixe um comentário

Capela de S. João e Santana

De muito longe vem a ideia da construção duma capela no sítio do Trapiche desta freguesia. Já em 1606, o bispo diocesano D. Luís Figueiredo de Lemos, na visita pastoral que fez a esta paróquia, reconhecendo que era uma necessidade a construção duma ermida naquele bairro; determinou que o pároco de então, o padre António Afonso de Faria, promovesse essa construção, socorrendo-se para tal fim dos auxilias que de certo lhe prestariam os habitantes dos sítios a que a mesma capela ia especialmente aproveitar. O mesmo prelado fez idêntica recomendação em 1608 e o bispo D. Lourenço de Távora, na visitação episcopal de 1613, novamente ordenou que se cumprissem as determinações do seu antecessor, mas resultaram sempre infrutíferas as diligencias daqueles prelados. Só passados dois longos séculos é que a ideia da construção duma capela no sítio do Trapiche chegou a ser realizada. No mês de Fevereiro de 1791 requereu o capitão-mor António Francisco de Gouveia Rego, que possuía terras no sitio do Trapiche, licença para construir á sua custa e como propriedade sua uma capela da invocação de S. João e Santana na fazenda que ali possuía. Sendo mandado ouvir o respectivo pároco, Pedro António Xavier, deu este, com data de 6 de Abril de 1791, o seguinte informe, que, por nos parecer bastante interessante, textualmente transcrevemos:

«O sítio denominado Trapiche, onde o suplicante pretende edificar a capella, dista desta parochia uma legua ou pouco menos e os caminhos são tão empinados que em cahindo qualquer rocha é muito dificil subi-los e descelos sem perigo de precipicio. É por isso mesmo que em tempo de inverno os habitantes daquelles sitios e dos que lhe ficam visinhos, principalmente mulheres, não poderem vir á parpchia nem a algumas das ermidas que lhe ficam na mesma distancia e é com bastante trabalho e fadiga que acodem os parochos aos sacramentos a que são chamados daquelles mesmos sitios, o que faz vêr não só utilidade mas grande necessidade que ha duma ermida naquelle sitio. Esta mesma necessidade existia já quando no anno de 1606 sendo bispo desta diocese o ex.mo sr. D. Luiz de Figueiredo na visitação desta Egreja deixou provido que os freguezes daqueIles sitios se juntassem para fazerem ali uma ermida, recomendando ao vigario promovesse isto mesmo: determinação que se repetiu na visitação do anno de 1608 e se tornou a recomendar na de 1613, em que era bispo desta mesma diocese o ex.mo sr. D. Lourenço de Tavora, o que nunca se efectuou talvez pela pobreza daquelles moradores, e o que tudo se deixa vêr dos provimentos das antigas visitaçães desta Egreja. E se já naqueIle tcmpo, do qual até ao presente tem decorrido 185 annos, em que naquelles sitios era muito limitada a povoação havia necessidade e repetidamente advertida, quando será essa hoje havendo-se dilatado tanto aquela povoação que até já pelas serras se vae estendendo e cada dia se dilata mais. Á vista pois do exposto julgo que não só se deve permitir ao suplicante a implorada licença mas fomentar-lhe o zelo, em que tanto interessa la utilidade espiritual daquelles habitantes. Isto é o que devo informar a V. Ex.ª Revrna, que determinará sempre o que lhe parecer mais justo».

A 19 de Abril de 1791 o bispo diocesano D. José da Costa Torres concedeu a licença pedida, julgando de todo aceitáveis as considerações feitas pelo pároco no seu informe. Apesar da concessão da licença, ainda desta vez se não realizou a ideia, já bastante antiga, da construção da capela no sítio do Trapiche. Ignoramos os motivos que obstaram a que o capitão-mor António Francisco de Gouveia Rego desistisse do seu intento, dando de mão á edificação que projectara e que parecia prestes a realizar-se, em vista da licença que lhe fora concedida. Só passado o período relativamente longo de 23 anos e depois do falecimento dele, é que seu filho, o sargento-mor João António de Gouveia Rego levou a cabo a projectada construção, cumprindo deste modo os desejos manifestados por seu pai.

Em virtude das disposições legais então vigentes, teve o capitão João António de Gouveia e sua consorte D. Maria Paula de Gouveia Rego de dotar a capela com a: importância anual de quatro mil reis, destinada á sua conservação, e que foi imposta numa propriedade rústica, que os mesmos proprietários possuíam no sitio dos Casais da freguesia do Arco de S. Jorge e que houveram por compra feita a António Gomes da Silva e sua mulher, moradores na referida freguesia, celebrando-se a respectiva escritura de dotação a 27 de Junho de 1814.

O vigário desta freguesia José Joaquim de Sousa, em cumprimento de ordens superiores, procedeu á vistoria do estilo a 12 de Agosto de 1814, e sendo a capela encontrada nas condições exigidas pelas leis canónicas, se concedeu a respectiva licença para nela se poderem realizar os ofícios divinos. Foi benzida e ali se celebrou a primeira missa a 14 de Agosto de 1814.

A propriedade desta ermida passou do seu fundador, o capitão-mor João António de Gouveia Rego, a seu filho o morgado Manuel de Gouveia Rego e deste a sua filha a sr. a D. Maria Paula Kniglofer Rego, que dela fez doação ao reverendo monsenhor Manuel Joaquim de Paiva, vigário da freguesia de S. Pedro..

Fica esta capela contigua á excelente casa de moradia da quinta do Trapiche. Nesta bela casa de campo, donde se desfruta um vasto e surpreendente panorama sobre a cidade e arredores, têm tido permanência mais ou menos demorada algumas personagens ilustres, como sejam os prelados desta diocese D. Patrícia Xavier de Moura, D. Aires de Ornelas de Vasconcelos, D. Manuel Agostinho Barreto, D. António Manuel Pereira Ribeiro e ainda outras pessoas notáveis.

O distinto madeirense, o arcebispo de Goa, D. Aires de Ornelas, ali passou parte do verão de 1879, e na biografia deste ilustre prelado escrita por seu irmão o conselheiro Agostinho de Ornelas encontramos aquele facto a seguinte referencia: «ainda depois de voltar da Índia, doente de doença mortal, carecendo do mais absoluto descanso foi confessar e ajudar a bem morrer um pobríssimo jornaleiro vizinho da quinta onde passava o verão».

D. Manuel Agostinho Barreto, o eminente e nunca esquecido bispo da Madeira, a1i passou a estação calmosa durante alguns anos e tinha por aqueles sítios, que percorria em frequentes passeios, uma predilecção especial, que não procurava ocultar.

Esta quinta e casa de campo, com seus terrenos e construções anexas, constituem hoje as diversas dependências do Manicómio, que ali mantêm os beneméritos irmãos de S. João de Deus com o nome de Casa de Saúde do Trapiche de que adiante daremos desenvolvida noticia.

Categorias: Memória

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