Santo António

Paróquia de Santo António da Ilha da Madeira (XXI)

Janeiro 18, 2007 · Deixe um Comentário

Nossa Senhora das Brotas

No sítio da Quinta das Freiras e na margem direita da ribeira de Santo António erguia-se a Capela conhecida pelo nome de Nossa Senhora das Brotas. Procurando investigar a origem desta, para nós, tão estranha denominação, apenas pudemos, apesar das nossas boas diligências, chegar a meras presunções e conjecturas, que talvez estejam muito longe da verdade. Supusemos primeiramente que aquele nome provinha, não da invocação ou orago da capela mas do lugar em que fora edificada. Havendo uma erva medicinal com tal nome, seria possível que, existido ali essa planta, desse o nome ao local e depois à ermida. Depois conjecturamos que tendo a província do Alentejo uma freguesia chamada Brotas, onde existe um notável santuário com a invocação de Nossa Senhora das Brotas, poderia porventura, por motivos hoje desconhecidos, dar-se à capela aquela denominação. Ambas as hipóteses se verificam em vários pontos desta ilha, sendo vulgar darem os primitivos colonizadores, vindos de Portugal, os nomes das suas terras ou sítios da sua predilecção a muitos lugares onde aqui se estabeleceram ou tiveram terras de sesmaria.
Em corroboração da primeira hipótese, temos que referir a circunstância de, noutros tempos e ainda presentemente, se prestar culto a Nossa Senhora das Brotas debaixo da invocação de Nossa Senhora da Luz, o que nos leva a presumir que aquela denominação diz respeito ao lugar e não ao orago da capela.
Segundo o documento que em seguida transcrevemos, foi Manuel Martins Brandão, que em 1678 fundou a capela das Brotas na quinta que possuía na margem direita da ribeira, um pouco acima da ponte de Santo António.

«Dom António Telles da Silva, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostolica, Bispo do Funchal, Porto Santo e Arguim, do conselho de Sua Alteza. Fazemos saber aos que o presente ai vará virem que Manuel Martins Brandão morador nesta cidade nos enviou a dizer por sua petição que tinha fabricado na sua quinta da Ribeira Grande da freguesia de Santo Antonio uma ermida da invocação de Nossa Senhora das Brotas, á qual tinha dotado de fôro em cada um anno para sempre dois mil reis impostos da dita quinta para repa­ro da dita ermida na forma costumada, a qual como constava da escriptura que offerecia feita pelo notario Francisco pelo que nos pedia que lhe concedessemos licença para que na dita ermida se podesse levantar altar e dizer missa como nas mais ermidas deste nosso Bispado, mandando-se fazer vistoria e que achando-se capaz com todo o necessario e decencia devida lhe concedessem os a dita licença, e nos constando pela visita que mandámos fazer pelo nosso escrivão da camara que este passou, estar a dita ermida decente­mente ornada e com todo o necessario para se dizer missa e celebrar os officios divinos e dotada com dois mil reis de fôro impostos na Quinta da Ribeira Grande, como consta pela esériptura feita na nota do notaria Francisco em 4 de Julho deste presente anno de 1678 que fica no cartorio da camara. Havemos por levantar a dita ermida e lhe damos licença para n’ella se dizer missa e poder celebrar os officios divinos como nas mais ermidas deste nosso bispado} salvando sempre o nosso direito e da paro chia a que pertence e que não prejudicará, guardando-se sempre em tudo o costume e Constituições do Bispado e mandamos que em tudo se cumpra este nosso alvará, sendo lançado no livro grande dos registos da camara para todo o tempo contar esta licença. Dado no Funchal sob cossosignal e sellos de nossas armas aos dias do mez de Julho de 1678. Matheus Gomes escrivão da camara o fez.»
Não sabemos se a quinta das Brotas tirou o nome da capela ou se porventura lho deu. Resta ainda hoje um prédio urbano, que nos parece ser uma parte considerável da antiga casa solarenga. Da velha ermida estão ainda de pé o pórtico e quase todo o frontispício e parte das paredes laterais. Consta da tradição que as águas da ribeira, desviando-me do seu curso natural, em virtude da violência do corrente, destruíram uma parte considerável do adro, deixando o edifício ameaçado de iminente desmoronamento.
Em 1732, visitando pastoralmente esta freguesia o prelado D. Manuel Coutinho ordenou que o administrador desta capela a provesse dos indispensáveis paramentos, pois de contrário a mandaria fechar, e em 1736 notou ainda o visitador episcopal que tinha ela falta de alguns objectos necessários ao culto.
No primeiro quartel do século passado, e não sabemos se ainda no principio do segundo, se celebravam os ofícios Divinos nesta capela. Pouco depois de 1843, ano da construção do cemitério, se levantou neste recinto uma pequena capela, sendo para ela levados o altar e a imagem da ermida de Nossa Senhora das Brotas, que ao presente ali se encontram ainda.
Acerca do orago da capela e nome da imagem, encontramos o seguinte, num livro do arquivo paroquial: “Não se sabe ao certo qual a invocação da imagem de Nossa Senhora que está na capela do cemitério. Sabe-se que aquela imagem era da capela de Nossa Senhora das Brotas, mas este título refere-se ao sítio onde estava a capela e não á imagem. Representa esta a Senhora com o menino nos braços, tendo no pedestal, do lado direito, um peregrino de joelhos e ao lado esquerdo uma vaca brava em atitude ameaçadora. O povo venera aquela imagem sob o título de Nossa Senhora da Luz e por isso se lhe faz a festa a 8 de Setembro».
Pelas referências que encontramos dispersas em alguns livros do arquivo desta freguesia, parece que a imagem de Nossa Senhora da Luz ali venerada era objecto de cultos fervorosos, pois, além do mais, vemos que António Garanito, falecido no primeiro quartel do século XVIII, deixou a sua mulher Joaquina de Freitas a terça parte dos seus bens com o encargo da celebração duma missa anual e perpetua nesta capela, que Manuel
Fernandes, nas diversas disposições com que morreu em 1776, inclui o de serem ali celebradas setenta missas e que Maria de Freitas, falecida em 1746, dispõe em testamento que na mesma capela se digam trinta missas.
Em 1736 era o morgado Pedra José de Faria Bettencourt, que julgo ser um sucessor do fundador Manuel Martins Brandão, o proprietário de capela e quinta das Brotas e ali tinha residência, tendo nela falecido um seu filho menor em Março do mesmo ano e que na mesma capela foi sepultado.

Num antigo livro de linhagens, encontrámos o seguinte trecho, que nos parece ter alguma afinidade com o objecto deste capítulo.
«Ignacio de Bettencourt e Camara… nasceu em 1643 e casou com D. Antonia Brandão, filha herdeira de Pedra Gonçalves Brandão. Fizeram morgado de seus bens e o annexarão ao que nelles tinha feito Manuel Martins Brandão ( o fundador da capela) e em todos elles succedeu Henrique Henriques de Noronha, filho de seu irmão Pedra Bettencourt Henriques».
Cremos que a capela e quinta das Brotas pertenceram, em outros tempos, á casa Terra Bella.

Categorias: Memória

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