Capela de Nossa Senhora da Quietação
No sítio dos Alecrins desta freguesia ficava a capela de Nossa Senhora da Quietação, de que nem hoje restam vestígios. Era mais conhecida pelo nome de capela dos Alecrins e até numa referência a ela feita no ano de 1680 se lhe chamava igreja dos Alecrins, apesar das suas acanhadas dimensões. A denominação pouco vulgar de Quietação provém da circunstância de ter a capela como orago o mistério que representa o sossego e a tranquilidade que, no retiro da casa de Nazaré, gozava a Santíssima Virgem em companhia do Menino Jesus e do patriarca S. José.
Segundo dizem as Saudades da Terra e o documento que abaixo transcrevemos, trasladado textualmente do arquivo da Câmara Eclesiástica deste bispado, foram Lourenço de Matos Coutinho e sua mulher D. Mariana de Ornelas de Vasconcelos, que no ano de 1670 fundaram esta capela, em cumprimento dum voto que haviam feito à Santíssima Virgem, na quinta que possuíam no sítio dos Alecrins e que tinham herdado de seu pai e sogro e morgado Bento de Matos Coutinho, o qual por sua vez a houvera, por compra, de Simão Gonçalves da Câmara e Jorge da Câmara Esmeralda.O documento é assim concebido:«O Doutor Pedro Moreira, deão da Santa Sé deste Bispado do Funchal, provisor, vigario geral pelo mui reverendo cabido séde vacante e governador do Bispado, confirmado por sua magestade, e Commissario sub-de1egado da Bulla da Santa Cruzada em todo o dito Bispado. Aos que este meu alvará de licença e erecção de altar virem, faço saber que Lourenço de Mattos Coutinho e sua mulher D. Marianna de Vasconcellos moradores nesta cidade me enviaram a dizer por petição que elles por sua devoção e voto que fizeram, no tempo em que impetraram dispensação a sua santidade, promessa á Virgem Maria de edificar uma ermida na sua quinta da invocação da Quietação da mesma Senhora, representando o misterio e quietação que gozava em sua casa na educação do Menino Jesus em companhia do Patriarcha S. José, a qual estava acabada e preparada de todo o necessario, para nella se poder dizer missa e se celebrar os officios divinos como nas mais ermidas do Bispado, pediram-me licença para isso, indo ou mandando visitar a dita ermidade, o que visto por mim e me consta da materia referida na petição dos supplicantes e pela vista dos meus olhos que fiz no painel e imagens referidas n’ella e a julgo por mim decentes para collocar no altar e por reconhecer estar a dita ermida decentemente ornada de todo o necessario, e estar dotada com dois mil reis de fôro em cada um anno para a fabrica della, isto em umas courellas pertença da mesma quinta que herdaram de seu pae e sogro Bento de Mattos Coutinho, que as houve de compra a Simão Gonsalves da Camara e seu irmão Jorge da Camara Esmeraldo, como consta de uma escriptura feita por Manuel da Silva, notaria nesta ‘cidade, que fica no archivo do Reverendo Cabido. Hei por bem de lhe dar licença para que na dita ermida se possa levantar altar, dizer missa e celebrar os officios divinos como nas mais ermidas deste Bispado sem prejuizo do parocho, guardando em tudo o costume e constituições do Bispado e mando em tudo se cumpra e seja lançado este alvará no livro do registo grande da Camara para que a todo o tempo conste. desta licença. Dado no Funchal sob o meu signal e sello da sé vagante aos dezoito de Junho de mil seiscentos e setenta annos. Francisco de Fonseca escrivão da Camara e visitações o fez, Doutor Deão.»Foi nesta quinta a capela que em 1677 instituiu o seu fundador o morgado dos Alecrins, como mais largamente se poderá ver no capítulo Instituições Vinculares.Em 1732 já a ermida dos Alecrins se encontrava em estado adiantado de ruína, pois o bispo D. Manuel Coutinho, na visita pastoral que fez a esta freguesia daquele ano, mandou «fechar com travessas» a mesma capela, e o visitador episcopal António Mendes de Almeida ordenou em 1736, que, com respeito ela, e já então se achava fechada para o serviço do culto, examinasse o pároco se lhe estava imposta alguma pensão de missas ou qualquer outro encargo pio.Num interessante e valioso mapa da Madeira, que é exemplar único e que existe na freguesia da Camacha na casa do conselheiro Aires de Ornelas, feito pelos engenheiros Dias de Almeida e Francisco Alincourt no ano de 1771, se vê apontada a capela dos Alecrins, sendo esta a referência mais recente que acerca dela pudemos encontrar.Constança d’Aguiar, numa propriedade que possuía nas proximidades da capela de S. Paulo, deixou-a onerada a seus herdeiros com a obrigação perpétua da celebração anual de nove missas rezadas na capela da Quietação.Nesta ermida se baptizaram, com as necessárias licenças, em 1694 e 1705, Mariana e José, filhos do capitão Bartolomeu de Vasconcelos e sua mulher D. Inácia de Noronha, administradores da mesma capela.





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