Curral das Freiras
O Curral das Freiras até o ano de 1790, em que foi desmembrado da freguesia de Santo António, fazia parte integrante dela, sendo portanto comum ás duas paróquias ate o ano referido, todos os acontecimentos que possam interessar á historia de ambas.
Fica o Curral situado no interior da ilha e assenta no fundo da cratera dum extinto vulcão, segundo vários geólogos o afirmam. Para alcançar este lugar, mister é subir altas e íngremes montanhas e descer pelas declivosas ravinas que circuitam o profundo vale, que se mostra como um horroroso e insondável abismo, ao ser observado dos píncaros da serrania. É talvez o ponto da Madeira em que a natureza se apresenta mais notavelmente grandiosa e de aspectos mais surpreendentes, pela grande elevação e forma caprichosa dos montes, pelo alcandorado e aprumo das encostas, pelos desfiladeiros e abismos que se encontram disseminados por toda a parte; pelo tom agreste e selvagem da paisagem, o que tudo dá ao conjunto um ar de tamanha grandeza ~ majestade e de tão extraordinária e encantadora beleza, que o visitante, ainda o menos apercebido e sensível, fica surpreso e estático ao deparar com este cenário de tantas e tão incomparáveis maravilhas. «Vimos um boqueirão, diz um distinto escritor, de muitos metros de largo e cortado quase a pique, voragem espantosa, cavidade imensa em volta da qual, excepto pelo sul, se erguem píncaros titânicos, de fantasiosos perfis, e, no fundo do abismo…» a miniatura campesina de um paraíso… Sobranceiros ao Curral das Freiras, ficam alguns dos mais elevados picos da Madeira, sobressaindo entre todos o conhecido Pico Ruivo, que se eleva a uma altitude aproximada de dois mil metros acima do nível do mar. Em inúmeras obras nacionais e estrangeiras se encontram largas referências ao Curral, tendo sido este lugar bastante visitado por muitos homens ilustres e entre eles alguns que se notabilizaram nos domínios das ciências e das letras.
Nos tempos primitivos da colonização teve apenas o nome de Curral, que lhe provinha do facto de ser um centro de abundantes pastagens. de gado lanígero e caprino, que pastores entregando-se a uma vida quase nómada, por ali pastoreavam livremente os seus rebanhos. Foram-se-lhe reunindo alguns escravos, que, fugindo do povoado, alcançaram ali a sua carta de alforria, e também vários criminosos escapados á acção da justiça, formando-se deste modo um pequeno núcleo de povoação naquele longínquo e apartado ermo, que a distancia e as dificuldades das comunicações, através de montes fechados de arvoredo e semeados de perigosos abismos, tornavam quase inacessível. Começou depois o arroteamento e cultura das terras e já nos princípios do século XVI havia ali um pequeno centro de população de habitantes de moradia fixa e legalmente constituída. Deixou então de ser um valhacoito de foragidos e criminosos. Teve pouco desenvolvimento este primitivo núcleo de população, pois que em 1794 era apenas de cento e dez o numero dos seus habitantes.
Em 1480 eram proprietários do Curral, Rui Teixeira e sua mulher Branca Ferreira, que tinham residência no Campanário. Foi a 11 de Setembro deste ano que celebraram a escritura de venda desta vasta propriedade ao segundo capitão donatário do Funchal, João Gonçalves da Câmara, propriedade cuja área se estendia «desde o Passo da Cruz e Ribeirão dos Socorridos até onde ela nasce de arrife a arrife, de uma a outra banda»
O preço desta compra foi de «23$500 reis de cinco ceitis ao real e 50 cruzados de ouro, valendo 380 reis cada um». Destinava o capitão donatário esta aquisição de terrenos á dotação que fez a suas filhas D. Elvira e D. Joana, quando estas professaram em Santa Clara, mosteiro que o mesmo donatário fundara em 1492, entrando para ele as primeiras religiosas em 1497. Deve ter sido realizada no período decorrido de 1492 a 1497 a dotação do Curral, que a partir desta época passou a denominar-se Curral das Freiras.




